Análise do Quake 4
Análise do Quake 4 feita pelo UOL Jogos
Se "Wolfenstein 3D" foi o avô dos games de tiro em primeira
pessoa (ou "shooters") e "Doom" o pai, então "Quake"
pode ser considerado o filho, daqueles que dá bastante orgulho aos antepassados.
Árvore genealógica à parte, o que não pode ser ignorado
é que todos os clássicos acima citados nasceram do ventre da produtora
Id Software, uma verdadeira autoridade do universo do entretenimento eletrônico.
De qualquer forma, "Quake" sempre foi uma espécie de "xodó"
e razões para merecer tal tratamento não faltaram.
Cada episódio de apresentou estilo e dinâmica bastante
distintos: o original, de 1996, foi responsável pelo início
e popularização dos apaixonantes "deathmatchs"
via internet, em servidores espalhados pelo planeta; "Quake
2" (1997), por sua vez, acrescentou enredo à saga, baseando-se
em um conflito de humanos contra uma raça alienígena,
quase todo centrado no single-player; "Quake III" (1999),
finalmente, reassumiu a vocação multiplayer do jogo
de tiro, evidenciando isso em uma dinâmica de jogabilidade
que "Unreal Tournament" faz evoluir até os dias
atuais.
Portanto, como se pode perceber, qualquer novo capítulo
da série tem uma "responsa" da qual não
se pode fugir ou esquivar. Seria isso um dom ou uma maldição?
Depende do ponto de vista. Logo de cara, "Quake 4" causa
uma certa estranheza por dois motivos: em primeiro lugar, porque
a Id Software resolveu delegar o seu desenvolvimento à Raven
Software que, embora competente, não tem a bagagem da Id;
em segundo lugar, vem o fato de o multiplayer ter recebido pouca
atenção em "Quake 4" - talvez porque "Enemy
Territory: Quake Wars", focado na jogatina via rede e internet,
venha aí, mas, de qualquer forma, embora parecidos, são
produtos diferentes.
Correr e atirar, é só começar
O jogo começa a partir de onde "Quake II" parou,
dando a entender que o marine protagonista da segunda versão
foi morto pelo líder dos Strogg, conhecido como Makron. De
qualquer forma, o personagem de "Quake 4" pelo menos ganhou
um nome: chama-se Matthew Kane, marine espacial do esquadrão
Rhino, que precisa voltar ao planeta Stroggos para colocar um fim
definitivo nos planos dos alienígenas.
Logo nos primeiros minutos, percebe-se que em termos de jogabilidade,
não mudou muito em relação às versões
anteriores - em especial, o "Quake" original. Pouco raciocínio
e muitos tiros imperam em objetivos rápidos, como resgatar
um companheiro ou destruir determinado alvo. Em suma, ação
frenética e quase incessante. Se por um lado compensa para
os fãs da série, por outro vale ressaltar que, passados
tantos anos, o estilo "atirar e correr" já não
consegue mais esconder os sinais da idade.
Entretanto, justiça seja feita, a Raven Software implementou
algumas novidades para tentar renovar, ao menos um pouco, a jogabilidade.
A mais notável delas são os seus companheiros de esquadrão,
os quais, embora você não comande diretamente, mostram
essencial valia nos momentos principais de "Quake 4".
Alguns dos personagens encontrados ao longo do jogo precisam ser
mantidos vivos; do contrário, "game over". Porém,
a maioria apenas o segue e, o quanto ficarem vivos e ao seu lado,
tanto melhor. Como já dissemos, não é possível
comandá-los diretamente, mas mesmo assim os personagens demonstram
um certo arrojo na inteligência artificial, além de
bastante resistência.
Os médicos e engenheiros, por exemplo, enchem a sua barra
de energia e armadura quando solicitados, o que é realmente
indispensável, já que as criatura infernais de "Quake
4" não são moleza e, como se não bastasse,
adoram atacar em grupo. Outros aliados, como o engenheiro, fornecem
aprimoramentos para as armas.
O arsenal, aliás, não destoa da série, com
as costumeiras "gun" ("rail", "nail",
"lightning" etc), além das indispensáveis
escopeta e metralhadora e de uma versão da avassaladora BFG,
intitulada "dark matter gun". Mas, voltando aos aprimoramentos,
os engenheiros fornecem novos recursos às armas: a nailgun,
por exemplo, passa a "travar" inimigos na mira, enquanto
os tiros da hyperblaster ricocheteiam nas paredes e os mísseis
da rocketgun saem em trio.
As seqüências à bordo de veículos - um
"mech" e um tanque, na verdade - ficaram bem mais simples
que o esperado, mas até que ajudam a quebrar um pouco a repetição.
Jogar sozinho é mais legal
É frustrante ver como o multiplayer de "Quake 4"
ficou limitado. Não que seja ruim, mas, comparativamente,
até mesmo o de "Quake II" é mais divertido
e interessante. Assim como "Doom 3", o jogo limita-se
ao feijão-com-arroz, no suporte para até 16 jogadores
em modalidades tradicionais, como deathmatch e capture-a-bandeira.
Muito pouco para a série que, já dissemos, iniciou
a febre multiplayer dentre os jogos de tiro.
Ou seja, não chega nem aos pés do single-player.
Nesse sentido, as comparações com "Doom 3"
são mesmo inevitáveis, já que até mesmo
a tecnologia gráfica foi dele reaproveitada em "Quake
4". Os ambientes são, em sua maioria, quase totalmente
na penumbra, o que faz da lanterna um acessório indispensável.
Por sorte, algumas das armas têm o acessório acoplado,
mas em outros casos é preciso revezar mesmo.
Bem, em se tratando de qualidade gráfica, o jogo dispensa
apresentações: os ambientes escuros evidenciam ainda
mais os efeitos de luz, em cenários que mantém intacta
a tradição mórbida e até meio "demoníaca"
da série, com sangue de sobra, criaturas horríveis
e por aí vai.
Embora a trilha sonora não seja exatamente um primor, com
músicas simplórias, os efeitos sonoros fazem jus às
armas, e as constantes comunicações com os companheiros
de esquadrão, sempre recheadas de tensão, ajudam a
dar mais dramaticidade ao enredo, que também não é
dos mais geniais.
Bom, mas não o suficiente
"Quake 4" é divertido, sem sombra de dúvidas.
Mas, depois de jogar F.E.A.R. (ou mesmo "Half-Life 2"
e o próprio "Doom 3"), é preciso se perguntar
se apenas isso basta. Se estivéssemos falando de um jogo
de tiro convencional, tudo bem; porém, trata-se de "Quake",
um nome de respeito, de uma série que se acostumou a quebrar
paradigmas e levar o gênero a novos limites.
Por isso, nesse caso vale a máxima: "quando se pode
ser melhor, ser bom já não é suficiente".
Então, a mesma sensação de que faltou algo
deixada por "Doom 3", repete-se agora em "Quake 4".
Os antigos fãs da série correm um risco maior de se
frustrar, principalmente se estiverem esperando por algo à
altura dos antecessores, mas quem gosta de atirar, sem muito papo,
se divertirá do início ao fim.
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